O avant-garde tecnológico das (já não) periferias

O tema tem-me assaltado os pensamentos com repetida intensidade:

O acesso facilitado à Internet, sobretudo à banda larga, tem vindo a globalizar não apenas os conteúdos distribuídos, como as próprias ferramentas com que aqueles são produzidos.

As comunidades open-source são um exemplo ilustre, mas gostava que nos pudéssemos concentrar por momentos num outro tópico: o uso e a partilha (peer-to-peer) de tecnologia licenciada no desenvolvimento de uma alter-indústria cultural. Por outras palavras, o que é habitualmente designado por pirataria informática.

Estou certo de que não agradará aos líderes da indústria, às autoridades fiscalizadoras, aos vendedores licenciados. Seja como for, gostava de deixar uma pista para discussão: qual será o peso real do uso de tecnologia pirateada no impulso dado ao ciberespaço?

Através de um qualquer programa de partilha de ficheiros, o acesso fácil, rápido e – como diria o Rosental – imoralmente barato (!) – a software de desenvolvimento de sites (ex: DreamWeaver), de fotografias (ex: PhotoShop) e de vídeo (ex: Adobe Premier) abre portas a que as tradicionais periferias geográficas, sociais, políticas, etc possam sonhar com uma metamorfose profunda.

Deixo para reflexão um simples exemplo: somos hoje capazes de calcular o impacto futuro desse uso tecnológico dito desviante?

Por outras palavras, quantas crianças e jovens hoje desapossados não poderão vir a ser amanhã os líderes da inovação por terem tido facilmente disponíveis ferramentas que existem no mercado formal a preços (para eles) proibitivos?

Legalidade vs Sol Lucet Omnibus? Mercado Liberal vs Acesso Igualitário à Cultura?

Dá que pensar…

3 respostas a O avant-garde tecnológico das (já não) periferias

  1. miguel crespo diz:

    A Web não é espaço de certezas, mas de incertezas. quanto muito de tendências ou pistas para algo (sempre) novo. Mas uma certeza que ainda ninguém me conseguiu abalar é que o conceito de blogue, a capacidade de qualquer pessoa, com conhecimentos técnicos e tecnológicos próximos do zero (um dia chegaremos ao zero absoluto da iletralidade), poder produzir de forma quase instantânea e sem custos os seus próprios conteúdos mudou completamente o mundo.
    Já não existem emissores e receptores. Todos são ambos, em simultâneo. E já ninguém se contenta em ser receptor. Na Web e fora dela.

    Será uma nova Revolução Francesa, um novo Maio de 68? Não sei, mas desde que os cidadãos deixaram de caber na Ágora, como lembrou o nosso querido Rosental, que não havia uma possibilidade democrática real de todos terem voz. E que VOZ!

  2. .joana. diz:

    Mas, Miguel, quem são esses “todos”? Será que um dia o mundo inteiro (e inteiro é mesmo inteiro, África incluída!) estará ligado virtualmente?

    E outra questão: já percebemos que é possível levar para a Web o melhor do mundo real livre e democrático, mas não será que estamos também a levar o pior (a mentira, o roubo, a violação de direitos fundamentais, e, quem sabe, talvez a guerra?)?

    Será que no futuro as crianças terão na escola a disciplina “introdução à cidadania virtual”? ou outra coisa do mesmo género?

  3. anageorge diz:

    As crianças e jovens, historicamente, sempre foram inventivos em contornar as condicionantes financeiras para usar recursos para os seus trabalhos criativos.

    De algum modo, os usos previstos são institucionais, mas os utilizadores têm um papel a desempenhar na evolução das ferramentas. Não são só as empresas que ditam a história da Internet, mas os seus utilizadores são agentes activos dessa história.

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