Web semântica: 3.0 ou apenas uma evolução?

Um artigo que pertence a uma série que o Online Journalist Blog pretende fazer sobre jornalismo semântico põe os pontos nos ii e mostra que a Web semântica não é conceptualmente a grande revolução que aí vem, mas antes uma evolução do que já existe.

A questão é: a web semântica não será muito diferente da web 2.0. Como tal, é exagerado pensá-la como 3.0.

Conforme explica o artigo, na web semântica, ao digitarmos “Que temperatura faz em Lisboa”, a resposta que nos aparece é 28º. Ou seja, é uma resposta inequívoca e exacta para o que perguntamos. Pelo contrário, hoje em dia, o que temos é uma variedade de informação (os termos, num motor de busca) sobre o assunto Temperatura ou Lisboa. As probabilidades de acertar no que queremos é quase nula, como se pode ver numa pesquisa pelo Google.

A partir deste exemplo, podemos compreender que a web semântica limitará as dificuldades de acesso à informação. A pesquisa terá mesmo uma resposta e não apenas um resultado.

Como é que isto é feito? Tal como se explica também nesta maravilhosa infografia no El País, a web semântica correlaciona os termos de uma frase, compara o seu uso, e identifica o que essa frase pretende dizer. Embora pareça sempre que o sistema vai descobrir a partir do nada o que uma palavra quer dizer – a sua semântica – a verdade é que utiliza uma base de dados gigantesca que lhe permite correlacionar os termos da pergunta. O segredo é que esta base tem não só os dados em si, como tem que os ter “marcados” em relação ao seus usos. No fundo, é o mesmo principio que utilizamos quando fazemos tags em determinada informação.

Por este principio ser tão simples, custa a acreditar que esteja a demorar tanto tempo a vigorar. O motivo é muito simples. Dada a impossibilidade de construir uma base de dados com toda a linguagem humana (e não apenas as línguas), que é disso que se trata, o que os investigadores estão a tentar desenvolver é um protocolo que já incorpore automaticamente essa marcação. Porque em bases de dados pequenas, dentro de um sistema de informação de uma empresa, ou do corrector ortográfico do Word, por exemplo, isso é possível, visto que os termos são conhecidos.

Outra questão referida no artigo são as metáforas, entendidas aqui como desvio de sentido. A web semântica não poderá indentificar o sentido de uma metáfora porque… ela não tem sentido. Mais ainda, como é que poderá retirar sentido de expressões cujo sentido está para além do literal, como no exemplo citado no artigo “O camião parou ao pé de mim”, cujo verdadeiro significado é que ele não me atropelou?

Questões como estas foram amplamente discutidas na primeira metade do Sec. XX pelos filósofos do Linguistic Turn, que vale sempre a pena ler, começando por Wittegenstein. Em alguns debates dessa altura, chegou-se a utilizar comparações com máquinas automáticas. Não eram mais que os computadores de agora. Resta apenas lembrar o clássico confronto homem-máquina da ficção científica. O que é que as máquinas não conseguiam fazer? Perceber além do sentido literal. A semântica é sentido dentro de contexto. Dentro, não fora.

Não quero dizer que a web semântica não irá alterar o nosso relacionamento com a informação. Mas parece-me exagerado dizer que seja uma revolução.

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